São Paulo, 19/12/2018 – A expectativa de retomada econômica e de que as privatizações ganhem força com a equipe econômica do governo eleito de Jair Bolsonaro (PSL) deve dar a tônica do mercado brasileiro de fusões e aquisições (M&A, na sigla em inglês) e impulsionar o volume de transações. Com isso, o pano de fundo para os negócios está desenhado, mas a mola propulsora para as operações começarem a sair mais rapidamente do papel devem ser as primeiras medidas concretas do novo governo, com o holofote voltados para a reforma da previdência.

Uma mudança do patamar do mercado de M&A brasileiro no ano que vem dependerá, na visão do chefe do banco de investimento do Itaú BBA, Roderick Greenless, exatamente das privatizações. “Demanda existe. Há compradores brasileiros e estrangeiros esperando avidamente por essas transações”, destaca o executivo. “Isso deve dar uma força adicional ao mercado em 2019 e em 2020”, resume.

No Credit Suisse, o ritmo das conversas tem ganhado corpo nesse fim de ano, sinalizando, desde já, um mercado aquecido no próximo ano, destaca o responsável pela área de M&A do banco suíço, Thiago Rocha. “Estamos observando um dezembro atípico. Em 2019, o ano começará bem antes do Carnaval”, destaca o executivo. Segundo ele, tais conversas também envolvem investidores estrangeiros que ainda não têm presença no Brasil, mais um indicativo para um ano de 2019 com bons volumes de negócios. “Desde o segundo semestre já começamos a perceber os olhares de fora para o Brasil”, disse.

Depois das eleições, sobretudo, o tom otimista cresceu no mercado. O sócio da área de mercado de capitais no BTG Pactual, Bruno Amaral, destaca que o viés liberal da equipe econômica que assume em janeiro de 2019 e a projeção de um maior número de privatizações e concessões deverão impulsionar, primeiramente, o setor de infraestrutura no Brasil. “O horizonte dos investidores, nesse momento, é de médio e longo prazos”, cita o executivo.

Além disso, voltaram à mesa das companhias os planos de crescimento inorgânico, depois de alguns anos em que o mercado de M&A no Brasil foi ditado pela venda de ativos por grandes grupos com dificuldades financeiras, que estavam em busca de liquidez.

Diogo Aragão, chefe de M&A do Bank of America Merrill Lynch, frisa que, desde o fim das eleições, muitas empresas passaram a planejar a retirada de seus planos de investimento da gaveta. Depois de 2018 ser marcado por muitos negócios que aconteceram independentemente do momento econômico do País – ou seja, transações menos relacionados ao crescimento econômico -, a expectativa é de que negócios pr-cíclicos, tais como os do setor do varejo, ganhem espaço, comenta o especialista.

Esquentou 
É verdade que alguns processos de M&A foram postergados à espera das eleições, mas as companhias já voltaram à mesa para dar sequência aos negócios, conta o responsável pela área de fusões e aquisições do Bradesco BBI, Henrique Lima. “Alguns clientes não lançaram o processo até terem mais claridade e recomendamos a espera para se ter um cenário mais favorável”, destaca o executivo. Lima frisa que mais setores devem protagonizar movimentos de fusões e aquisições, com menor concentração nos setores elétrico e de papel e celulose, por exemplo, que marcaram as grandes transações neste ano.

No início de 2018, a expectativa geral era otimista em relação ao ambiente de negócios no Brasil, com negócios de peso sendo anunciados já nos primeiros meses do ano, caso do acordo de compra da Fibria pela Suzano, a Somos pela Kroton e, um pouco depois, a aquisição do controle da Eletropaulo pela Enel. Ainda na agenda para ser concluído está a parceria entre Boeing e Embraer e a venda da Braskem pela holandesa LyondellBasell, duas operações que ficaram à espera do desfecho das eleições presidenciais no Brasil.

O executivo do Bradesco destaca que a previsão é de que o investidor estrangeiro siga bastante ativo no mercado de M&A brasileiro, mas que os investidores, em geral, querem comprovação da tese que vem sendo transmitida pela equipe econômica do próximo governo. “Observamos um aumento da confiança. O mercado está bem positivo, mas um novo patamar de atividade em M&A depende da comprovação das teses já anunciadas pela nova equipe econômica”, diz.

A melhora das expectativas deve abrir espaço, segundo o sócio da G5 Evercore, Levindo Coelho Santos, para negócios mais saudáveis e não só aqueles em que um lado está pressionado para realizar a venda. “Estamos saindo de um quadro recessivo prolongado e a melhora da economia trará confiança por parte dos empresários”, destaca Santos.

No acumulado do ano até outubro foram anunciadas 538 transações de M&A, 4% superior ao volume de 2017, segundo dados da consultoria PWC. “O ano de 2018 apresenta sinais positivos da recuperação econômica do País. Com a definição das eleições presidenciais, temos o cenário econômico delineado para os próximos quatro anos, com perspectivas bastante positivas para as operações de M&A”, de acordo com documento divulgado pela consultoria.

O setor de “middle market” no período eleitoral no Brasil, segundo o sócio da área de M&A do escritório Benício Advogados Associados, Bruno Tanus, sofreu menos efeitos e as operações que acabaram ficando em compasso de espera foram aquelas mais dependentes do capital estrangeiro. Agora, passado o período de maior volatilidade, a tendência é de que os negócios destravem e sua expectativa é de um início de ano bastante forte.

 

Créditos: Fernanda Guimarães – fernanda.guimaraes@estadao.com